alchemya*

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05/08/2026 12:27am.



precisou começar em música. depois precisei me sentar, jejuar e entender. como não saiu com facilidade, eu precisei cravar com as unhas bem fundas. ainda não achava muito.
precisei cavar pedaço por pedaço e só então ir reunindo fragmentos para as demais compreensões. tinha um pedaço que começava em música, assim como eu precisei, e tinha outro que terminava em fogos!
um era um momento tão íntimo que eu desejei não ter entendido, outro era um livro-aberto, como se fosse parte de um acervo ainda maior.

conforme eu cravo as palavras e tento constituir sentido, mais desalojado me sinto nos meus próprios sentimentos.
é como se eu precisasse me espremer pra extrair o suco, que deveria ser natural, que deveria ser espontâneo. mas há em mim ainda o desejo de acreditar que isso é verdadeiramente espontâneo, e que neste ofício precisaria de música, de se sentar, jejuar, e então, por algumas fagulhas sequer de inteligência, enfim compreender.

estou tateando algo ainda mais profundo. decido então que tal ação poderia me considerar um arqueólogo de si mesmo. preocupadíssimo com as condições do que eu encontro, falhando em aceitar em mim que o que ainda temos é ainda mais valioso do que jamais foi, então continuo cavando e às vezes elas submergem por conta própria e em qualquer momento do dia, e eu vou preenchendo essa caixa, cada dia mais abarrotada de memórias, com medo de que se transborde e outra bagunça se inicie.

para o benefício da imaginação, o sítio em que eu trabalho é um espaço completamente obscuro. imagine que eu estou no espaço, de joelhos, com as mãos sujas escavando estrelas. é difícil te ilustrar a sensação de estar dentro de si ainda cavando, quando eu gostaria de estar afora, num dia ensolarado, de vista pro mar, mas eu ainda-estou-cavando! então imagine que a sujeira aparece nas minhas mãos quanto mais eu encontro, e quanto mais eu me sujo mais encontros me aparecem.

mesmo com muito, ainda tenho pouco consigo e observo o pouco que eu tenho em silêncio. nas minhas mãos encolhidas, o pouco que eu tenho observa a mim, também em silêncio, essa minha então natureza-morta. e eu me encolho. me encolho como se estivesse a chover "lá fora". e eu ouço as arranhadas da chuva simulando o acontecimento de perturbar min'alma.

essa minha reação não é nova, eu reconheço. sempre foi involuntária, mas também sempre foi opcional. seria da minha parte, contra os meus demais princípios, ignorá-la, mas eu decidi que hoje era o dia de dissecá-la, como com um bisturi afiado, o profundo sistema que me faz reagir. e eu não estava com medo de me sujar, então agora as mãos sujas cavavam ainda mais profundamente com armas e ferramentas que jogavam tudo pro alto mais e mais.

=[...] como se eu não soubesse
 cravar minhas própias inicias
 nessa cidade.

e agora é tudo mais rápido. e eu não luto!!
uma epifania, uma compreensão plena.
um bebê chorando numa cama de hospital, o primeiro átomo, o mundo se formando lá fora pela primeira vez.
disseca-me! esmiúça-me! avalia-me!!!!!!!

por um milésimo de segundo estou então correndo pelo quintal da nossa casa. nosso cachorro me acompanha babando. sempre tive medo de que ele fosse ansioso demais porque sempre estava alegre e não era sempre que eu tinha disposição pra brincar de correr pelo gramado. o cheiro da grama recém-cortada num dia ensolarado de sábado, as roupas penduradas no varal improvisado e o céu limpo de verão.

agora estou na multidão, atordoado. "só-mais-essa-noite" eu digo pra si. essa é uma das que tem música, mas não música que faz entender. tem vozes e tem mãos pra todos os lados e eu não estou nos meus sentidos. eu não consigo me rever nisso, não consigo olhar pra isso e tudo vai escurecendo...

...tem uma luz laranja no final da rua. minha mãe e eu brigamos neste dia. ela fugiu pro novo paraíso tropical dela e eu fiquei sozinho numa casa com uma porta que não se tranca. primeiramente você estava lá pra me confortar, depois as suas mãos foram descendo e aquele quarto em que eu me refugiei ficou com cheiro podre quando a sua mão me tocou profundamente pela primeira vez. o seu lábio me beijando e eu me aprofundando cada vez mais para dentro de si quando encostou onde nada jamais ousou e os que dormiam lá fora eram alheios à guerra que você acabou de começar.

o vômito. o cárcere. as risadas. a caipirinha e as minhas amigas. a mudança pra casa do pai. os meus desenhos. as pequenas peças de moto. as tangerinas. os gatos crescendo. as mãos que me puxam de volta. a mudança pra santos. os seus olhos marejados refletindo o mar. o retorno mais que doloroso. as noites sem dormir. o violão. o segundo instante. eu te procurando em outros. a eucaristia. uma noite brutal. os fios e as maquinas. pegar no sono enquanto temo ser atacado por cachorros. o lado direito da cama. a mensagem no seu celular. eu lembro o tempo todo. encarar o outro no espelho e se ver cavando num espaço inventado.

=como eu podia ser um campeão
 se não tinha certeza da
 minha identidade? [banheiro da zomel.]

é uma bagunça, eu admito! e eu já admiti antes precisar de ajuda mais de uma vez. eu estou vendo os barcos e os carros em balsas navegando pelo mar do porto pela janela do escritório, completamente sozinho. eu imagino que lá fora ainda exista alguma coisa ainda mais compreensível que possa afagar as faltas que eu quero deixar em apenas reconhecer o que eu escavo, e não vesti-las para si.
não quero definir esse passado em vertigem. para o definitivo de quem eu sou, mas eu só comecei a escavar pela necessidade de compreender, e mais uma vez eu me encontro em meio à bagunça.

sendo o arqueólogo de mim mesmo, só falta parafrasear:

"o fim, era só outro começo disfarçado de completude. era começo e o fim, todos os dias. quando o sol nasce e quando a lua é a única que brilha no céu."

esse ensaio dos cíclicos era o terror e a calma. eu gostaria de ficar. e como todas as coisas que ficam, eu queria me obsolescer, me arcaizar e me superar; dos fins e dos começos, só quero algum lugar para estar. e com a garganta ainda rasgada, dedilhei o risco com algumas novas desculpas.

duas taças olham uma para a outra. cada cara representa uma mentira. e não adiantaria nem mais fugir, já reconheceram a sua figura. te encontraram neste estado, "estrangeiro" de si mesmo.

quero ver um dia mais além dessa caixa que eu me coloco, a lua brilhar forte, ainda mais forte do que no nosso velho quintal ou os vaga-lumes do verão. lá fora, faz barulho e eu não me acostumei a isso. dormir nesse sofá, encarando outro começo que não é meu e nem me pertence. será que de algum jeito, ou de alguma forma, isso será o suficiente?

um dia isso será o suficiente.

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