*music, fashion and film*
29/07/2026 10:55pm.

quando eu pensei em escrever uma review para o novo álbum da charli, "music, fashion and film", minha primeira ideia foi publicá-la em algum site voltado para críticas, daqueles que catalogam e ranqueiam álbuns. parecia o lugar "certo" pra fazer isso, mas então eu me fiz uma pergunta muito simples: por quê? se eu já tenho um espaço meu, por que não escrever aqui?
de certa forma, isso parece apropriado. assim como a charli desafia convenções e resiste a categorias definitivas, decidi passar por cima dos meus próprios padrões sobre onde esse tipo de texto "deveria" existir. em vez de procurar a plataforma ideal, resolvi simplesmente escrever no meu blog.
esse que é o oitavo álbum de estúdio da cantora, também é um dos primeiros discos dela que eu realmente sentei para ouvir de ponta a ponta, dedicando minha atenção completa. não fui muito fã de brat na época que ele saiu, muito mais pelo momento em que eu estava vivendo do que pelo álbum em si. ainda assim, é inegável que ele se tornou um fenômeno comercial e cultural muito maior do que qualquer um poderia ter previsto e depois dessa explosão quase que exaustiva, music, fashion and film entrega exatamente precisava. não necessariamente porque tenta superar seu antecessor, mas porque segue outro caminho. é um álbum que parece muito mais interessado em sustentar sua própria identidade do que em repetir uma fórmula vencedora.
também vale dizer que eu não sou um crítico de musica especializado. estou escrevendo simplesmente porque gostei muito desse album. por isso, vou evitar fazer comparações constantes com trabalhos anteriores da charli. além de não conhecer toda a discografia dela em profundidade, nunca fui muito fã da ideia de medir uma obra apenas em relação às anteriores. ainda assim, mesmo com essa ressalva, music, fashion and film me parece um dos trabalhos mais coesos, seguros e refinados da artista e eu diria que um dos melhores trabalhos do ano.
ao meu ver, e talvez pela forma como eu gosto de interagir com música e qualquer outra forma de arte, sempre me interessa quando uma obra me convida a enxergar possibilidades que eu dificilmente veria por conta própria. não necessariamente por meio de mensagens explícita que me direcionam a como eu deveria estar pensando sobre, mas pela maneira como ela organiza ideias, sons e imagens. music, fashion and film é um álbum despretensioso. talvez não seja o mais polido ou meticulosamente calculado para agradar ao maior número possível de pessoas. em alguns momentos ele até parece inacabado, caótico ou desorganizado. mas é justamente isso que ele é. essa aparente bagunça nunca me soa acidental, ela parece existir porque faz sentido para si mesma.
uma das minhas faixas favoritas do álbum é persona. o conceito, desenvolvido por jung, descreve a máscara social que construímos para existir no mundo, aquilo que mostramos aos outros enquanto partes mais íntimas de nós permanecem ocultas. oque mais me encanta nisso é a coragem necessária para reconhecer que se está performando. admitir isso, ter plena consciência dessa construção e, ainda assim, continuar vivendo com essa percepção de si mesmo me parece um exercício de vulnerabilidade enorme. aceitar que ela (charli) também é construída exige uma honestidade quase desconfortável e eu acho que é oque da caráter ao que ela está fazendo.
esse tipo de vulnerabilidade parece virar obra-prima em alguns momentos, por exemplo em sympathy is a knife do brat, quando ela declama suas inseguranças em cima de uma outra pessoa que ela sente que jamais poderia ser. de certa forma esses sentimentos crus chegam ao ponto de serem até crueis, mas essa sinceridade transparece nela como artista. estar disponível para ser cru e vulnerável é uma característica que eu venho admirado muito em outras pessoas. em persona, essa crueldade é nitida, talvez não de maneira direcionada como foi anteriormente, mas talvez ainda mais cruel, por que é vista de dentro.
eu acho que num mercado (ou mundo) tão obcecado por categorizar tudo, explicar cada detalhe e transformar qualquer obra em um manifesto perfeitamente decifrável, existe algo quase alquímico em fazer arte simplesmente porque ela precisava existir. nem todo mundo vai entender esse processo, e talvez nem devesse. afinal, quando algo nasce de um impulso genuíno ao invés de uma estratégia para atender expectativas, ela inevitavelmente causa estranhamento em quem espera respostas prontas, mastigadas. a intencionalidade de fazer por prazer pode ser confundida por aqueles que performam por expectativas e isso, de nenhuma forma, exime o artista de recorrer a métodos que elevem o seu material nos charts e os números enormes. existe uma diferença entre criar algo genuíno e criar algo sem ambição. querer que seu trabalho seja reconhecido não diminui a autenticidade do processo; o que muda é de onde nasce essa vontade, acho que aqui isso foi aperfeiçoado.
é um trabalho coeso em todos os aspectos pra mim, desde a sua pretensão á sua despretensão. eu acho que a explosão do brat pode ter confundido a percepção geral de quem a charli é como uma artista. e o jung mesmo falou: "não importa o quão isolado você esteja e quão solitário se sinta, se fizer o seu trabalho de forma verdadeira e consciente, amigos ou aliados desconhecidos virão à sua procura." o music, fashion, film é isso. quando você se dedica a entender sua própria mente, enfrenta sua sombra e vive de acordo com a sua verdade, você muda a percepção do mundo e passa a ressonar com coisas que compartilham da mesma profundidade, mesmo que antes estivessem ocultas. é a alquimia dos universos que a charli habita, na musica, no cinema e na moda, é a amálgama entre uma pessoa e um trabalho constante de excelência em se conhecer, se explorar e se divertir por ser quem você é de verdade.
em algumas faixas, charli fala explicitamente sobre o medo que sente diante de uma versão passada de si mesma, uma pessoa que não se importava tanto em estar feliz, ou talvez nem soubesse exatamente o que fazer com a própria felicidade. porém, essa relação com o passado parece menos uma tentativa de superá-lo do que um reconhecimento de continuidade. hoje, ela se identifica com tantos outros parâmetros da vida, ao mesmo tempo em que é uma mulher casada, ainda se percebe como uma criança, como alguém autodestrutiva e como uma pessoa capaz de arruinar tudo. essa não é uma novidade para charli.ela não precisa atravessar eras, fases ou tantos outros períodos para finalmente descobrir quem é. existe, em sua escrita, uma consciência bastante nítida de si mesma, inclusive das partes que podem ser difíceis de admitir. e talvez seja justamente essa consciência que i'm afraid expõe: reconhecer a si mesma como uma possível figura da própria destruição não é, para ela, uma grande revelação ou um exercício de autodescoberta. ela já sabe quem é. sabe do que é capaz, conhece os próprios impulsos e entende os riscos que escolhe correr. o que existe, portanto, não é uma busca por definição, mas uma espécie de reconhecimento. ela sabe que pode ser responsável pela própria queda e, ainda assim, continua vivendo dentro dessa contradição. é ainda mais importante do que contemplar a sua própria persona.
sentada no chão de um apartamento parisiense, charli parece suspender por alguns instantes a própria persona e permanecer apenas diante daquilo que existe por trás dela. david cronenberg encerra o álbum com um monólogo sobre uma certa perspectiva. o artista está submetido a passagem. o momento desaparece e aquilo que parecia permanente se revela apenas uma tentativa de conservar alguma coisa antes que ela deixe de existir. o esquecimento deixa de ser algo a ser temido e passa a ser justamente aquilo que liberta o artista da necessidade de permanecer.
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