alchemya*

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* soturno. *

01/29/2026 01:13am.


na casa antiga, o quarto tinha uma janela enorme e eu, particularmente, nunca gostei de dormir de janela fechada. quando era mais cedo, eu me espreguiçava pela cama pequena como um gato numa calçada de cimento, com um dos olhos entre-abertos espiando se alguem de algum dos outros apartamentos poderia me ver. só pra imaginar que alguem poderia me observar, como eu observaria.

eu não tinha mais nenhum medo apavorante de ser visto. nem era de um tom pervertido também. era só que nas minucias da vida, eu esperasse que alguem, mesmo que só por um momento, me visse despertar também. não era só desejo de ser visto, mas desejo de ser visto de forma tão cotidiana que acabasse assim. alguem passou pela janela e me viu acordar — sem importância alguma.

de madrugada, eu ficava observando as luzes apagando e acendendo dos prédio em volta, vendo eles despertar e voltar. eu deixava os gatos entrarem no quarto e alguns deles sentavam no batente da janela onde eu estava apoiado com os braços e nós iamos, sincrônicos, observando o que acontecia lá fora. era uma exibição de cinema contemplativo. lá pras duas ou três da manhã, os olhos do gato, completamente soturnos, afirmavam a existência de alguém.



quantas vezes eu já escrevi sobre janelas?

não estamos mais lá, mas as vezes o meu quarto é partido ao meio por um feixe de luz de surpresa. eu mesmo, não fui atento o suficiente pra entender a condição do sol na janela do meu apartamento, mas nessa época do ano, em certa parte da manhã, ele parte.

eu ainda durmo do lado direito da cama. apesar da cama maior e apesar do meu hábito de me esparramar por ela durante a noite. o meu corpo em pouco tempo aprendeu a se manter um pouco mais no seu cantinho, pra que quando eu acorde, o outro lado ainda esteja intacto, do mesmo jeito que eu arrumei. e são muitos apesares agora, nem mesmo os olhos de um gato curioso. o que se tem para testemunhar são apenas os meus mirantes e as frestas luminosas nas janelas. e para se ver, alem dela, nada lá fora desperta.



eu lembro de quase tudo, de lá até aqui. é como assistir um jogo de tênis. ele vai, ele vem, tudo permanece. apesar dele não gostar desse tipo de analógia, é um duelo. mas eu posso contornar um pouco e dizer que é um dueto, hora vem, hora vai. ora eu, ora você. é um deuce.

na casa antiga, logo cedo o sol arrombava o quarto. a vizinha gostava de ouvir a rádio local bem alto aos sábados e aos domingos, diretamente do quintal, logo abaixo da minha janela. parece que acordei em outra época com um "simples carinho". hoje, eu pretendo comprar um relógio que me acorde com musica. e eu me lembro tão bem do nosso dueto. começou assim, pendurado na janela de um quarto, numa noite perfumada, com trilha sonora para você. ficou impresso, es-tam-pa-do, hora vai, hora vem.

a noite de fogos foi torturante e o caminho pra casa também. virei a noite revirando o apartamento dos outros com os olhos: festas e pequenas despedidas. um novo ano começou e eu estava de marrom, que má sorte! e por fim eu não soube de você, e nem você soube de mim, guardaram os nossos fogos pra depois então.

eu ainda durmo do lado direito da cama, meu lugar natural. naquela época não se entendia como direito, nem esquerdo, era o que se tinha e era o que é. se fez espaço com o tempo, como qualquer outra coisa faz. mesmo que fosse quente, mesmo que fosse pequeno, era meu. mesmo que fizesse barulho, mesmo que não aguentasse nós dois. era meu.

eu ainda lembro... de quase tudo, na verdade. muito, eu decidi esquecer. é o que o meu pai disse pra fazer. essa insistência pequena e teimosa insiste em querer mais, o ontem não precisa ser uma prisão, só um vislumbre.

e eu continuo me esticando, como um gato esparramado na calçada de cimento, olhos entre-abertos esperando alguem ou alguma coisa me notar. mas você não está mais aqui. e não entrou musica pela janela e nem o sol. eu ainda durmo do lado direito da cama e apesar dos pesares, eu ainda espio por cima do ombro tentando minuciosamente encontrar — você.



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