*um país estrangeiro.*
02/12/2026 11:53pm.
nossa casa era de trás de um morro onde o sol se punha e banhava o bairro todo em cores vermelho-alaranjado, às vezes um rosa-nostálgico que deixava os dias maiores e tristes.
de trás das grades do portão, eu ficava sentado com os pés cruzados vendo as pessoas passando. era o meu passatempo da tarde, observar. aprendi cedo que o silêncio ocupava menos espaço.
eu tenho um pouco de pena da memória. a memória é quem se fabrica, emancipada. eram dias tão comuns que com os anos, se tornam pequenos ganchos a
que nos agarramos para tentar encontrar algum valor. apesar de tudo, eles tem valor, mesmo que não se compreenda quando formados ― o valor equivalente de uma
memória era o de lembrar. quem se lembra de algo, pode-se se orgulhar de ter o presenciado, mesmo que costumeiro ou ordinario. e na fabricação da memória se
consulta o tempo, mistura cores, sentimentos, e transita entre o que se sentiu e o que se sente hoje.
memória é fermentação, se torna outra coisa com o tempo, depende do que. a maturação da memória fazia com que os vermelho-alaranjados das
tardes no observatório da garagem ficassem cada vez mais saturados e nítidos, e talvez o que se sentiu naqueles dias não fosse tão importante quanto é hoje.
apesar da sua cronologia, a memória é e permanece, independente. pode ser que daqui um tempo, se converta, se cure, se transforme. mas o que estamparia a memória,
mesmo que renunciasse, seria o passado.
hoje, o passado é um país estrangeiro.
e era tão estrangeiro que as ruas não eram mais as mesmas, as pessoas não eram mais as mesmas e os costumes que julgávamos ser o que é ser tornaram-se outros.
eu me lembro da árvore na frente da nossa casa de infância. meu avô cortou pouco tempo antes de nos mudarmos. foi o início de um desmatamento. as ruas do nosso bairro
tinham todas nome de pássaro e aos poucos se espantou para longe aqueles aos quais nos inspiravamos. os pintassilgos não foram mais vistos e conforme a cidade prosperava,
mais distância ficariam das memórias do meu pai sobre os seus primeiros dias ali. anos depois outras árvores simbólicas também seriam derrubadas, e com elas outros presságios do fim.
o passado é um território colonizado, primeiro cortam a árvore, depois levantam o muro, depois bloqueiam a luz,
depois ninguém lembra que ali já houve sombra.
ver o mundo discorrer por de trás das grades, incitava a memória banhada em vermelho-alaranjado. o passado, conforme se refinava,
comoveu a si mesmo, e dali por diante cada memória seria embebida de uma certa aflição. não me culpo pelo saudosismo e a melancolia, talvez
fosse o silêncio das tardes que estamparam essa sensação a anos por vir, mas cada nova memória parecia acontecer à margem do próprio instante e procurando por um passado, percebi que houve um antes.
“aí está o mar, a mais ininteligível das existências não-humanas.” eu me lembro da primeira vez que o vi. a noite estacionaram o carro e descemos com as roupas do corpo.
a imensidade conjunta era pra mim como as bordas do mundo. um céu que encontra o mar em negro. foi passageiro, mas no dia seguinte, cansado da praia, deitei no quarto maior com as portas
dobradiças da varanda entreabertas, o feixe de luz de fora cortava os olhos e lá fora, teria alguém procurando por mim. e como nas grades do observatório da garagem, eu apenas observei.
ultimamente, o passado é um cidade submersa. sem donos, eu posso mergulhar quando quero, descer até suas casas inundadas e abrir suas janelas para provar que eu e você existimos lá.
talvez alguém já estivesse atravessando a mesma noite sem saber que eu existia, ensaiando um vínculo que se limitou a observar, como se nas ruas da vida, nós constantemente trocássemos de calçada.
uma vez um amigo indiretamente me falou: “guarde tudo, TUDO que é seu, onde você pode achar.” dali por diante, tudo era precioso demais para ser perdido.
cada sensação precisava caber em algum lugar seguro. talvez tenha sido ali que a vida começou a ser registrada. o que antes era saudade virou mero arquivo.
visitamos a nossa casa de infância uns dez anos depois de ter sido comprada. onde era o meu quarto foi completamente abandonado.
os vizinhos ergueram um paredão alto demais, expandiram a casa para cima até que ela bloqueasse toda a iluminação.
ali não se via vermelho, nem laranja, nem rosa e por um instante foi curioso revisitar, como quem explora uma ruína que já foi familiar,
mas logo a sensação mudou. era como tentar imaginar a própria vida num cenário depois do fim e não se deve fazer isso muitas vezes.
estrangeiro era achar a si mesmo e não se ver duas vezes no mesmo lugar, nem em si. nem nos seus primeiros e nem no que já não é mais parte de mim.
não se acha a mesma pessoa duas vezes no mesmo lugar. olhando no espelho, mesmo que semelhante, não por estética mas por sensação, era outro, que me olhava de volta, horrorizado.
e o amor? aquele que é inocente e não erra, que não trai e nem cobiça e que dura para sempre. o amor SIM é um país estrangeiro. o amor,
aquele que imagino intacto, era feito da mesma matéria que as tardes vermelho-alaranjarado. pareceria eterno, mas só porque eu ainda não
tinha visto um muro ser erguido diante dele. com o tempo, descobri que o amor também sofre suas reformas com algum arquiteto. muda de planta. altera a fachada,
derruba uma árvore aqui ou ali. o que eu chamava de amor puro-inocente era, talvez, apenas um amor ainda não testado. e quando finalmente foi
atravessado pelo tempo, tornou-se outro território, com regras que eu não conhecia. falar de amor passou a exigir toda uma tradução. e eu, que
já não consigo voltar sequer à casa de infância, também não consigo voltar ao meu primeiro modo de amar.
o que era: aprenda a relaxar os ombros, deixe ele entrar, virou: aprenda a viver sem ele, até que ele não faça mais parte de nada.
não é inocente. falha. se ausenta mesmo quando promete ficar. aprende a mentir e omitir antes de aprender a pedir desculpas. não é por maldade, mas
por fraqueza. outros traem por medo. e alguns simplesmente desaparecem, como se nunca tivessem habitado o mesmo espaço que nós. será que eu ainda consigo confiar, se já não o ouço como os pintassilgos durante o dia?
se os silêncios se tornaram mais frequentes do que as presenças? antes, ele cantava sem que eu precisasse chamar. agora, preciso perguntar se ele ainda está ali.
pra mim, perguntar já era uma espécie de ruína.
(o amor é um país estrageiro como vienna, austria.)
numa tarde qualquer em insegurança, quinze opiniões diferentes terceirizavam a minha maneira de amar — como eu deveria amar!!
era estrangeiro o meu sentir e era errado. era errado perdoar e era errado ensaiar ciclos. mas pra quem teve tanta dificuldade em
aprender a relaxar os ombros, como se discute as novas regras impostas ao amar?
não há outro modelo guardado em algum lugar intacto, esperando para ser vivido, por que o amor é um território imprevisível.
não tem garantias de retorno, nem promessas de estabilidade. só o risco de entrar outra vez, sabendo que pode haver novas árvores ou novos muros.
e mesmo imperfeito, mesmo falho, ainda há uma parte de mim disposta a atravessar essas fronteiras outra vez. isso talvez seja ingenuidade ou talvez seja
coragem, mas continuarei atravessando. não é nenhuma batalha pra mim, nem duelo. o passado não é uma sentença, é, ou foi, um horizonte e eu o observo… eu o observo ou nunca mais amarei novamente.
acho que estou encostando numa contradição boa.
no bar, eu fumava um cigarro sozinho. eram quase cinco, horário dele passar por ali. me arrependi de ter fumado aquele dia,
por que a boca agora tinha um cheiro fúnebre. quando chegou, acho que dei graças a deus. do outro lado da mesa vermelha, ele me
olhava enquanto eu me escondia atrás de uma nuvem cinzenta. eu sabia que não era aquela pessoa sentada à mesa. para nós, o passado era um disfarce.
podia me enrolar e perguntar sobre o passado dele, nada mais anticlimático do que revisitar. ele disse que ainda amava o antigo namorado. estudavam coisas
diferentes, viviam dias cheios demais. restavam os fins de semana. um queria ser arquiteto, o outro queria ser sei lá o quê. a incongruência fez com que se
abandonassem. era melhor para os dois. mais tarde ele me diria que eu o ensinei ali o que era amar.
do outro lado da mesa, relaxei os ombros e agradeci pelo cigarro, não teria aguentado sem ele.
seu amor era um pintassilgo, esperando voltar do céu. eles mesmos derrubaram as árvores, e com isso se tornaram gaiolas um do outro.
“que pensamento idiota”, pensei, tragando mais uma vez. naquela tarde choveu tão forte que eu quase acreditei ter formado as nuvens cinzentas no céu.
não existe mapa para o que fomos, nem manual para o que amamos. o passado é estrangeiro, o amor falha, se ausenta e constrói gaiolas invisíveis,
mas ainda posso me perder nele e o observar. com o coração pendurado em lembranças, sabendo que o risco é a única certeza. o passado é estrangeiro porque
ele existe fora do presente, para entendê-lo preciso atravessá-lo como viajante, não como dono. a relação que tenho com ele é sempre mediada pelo tempo, pelo
sentido que lhe dou agora e pelo que idealizei do seu futuro. é familiar e estranho ao mesmo tempo. suas novas regras invisíveis viabilizam os meus medos e minhas
esperanças. é impossível se libertar completamente dele, sempre com a sensação de que estamos tentando entender algo que nunca será totalmente nosso.
quanto mais eu o observo, mais eu percebo que não é estático. sem mapas, não há garantias. desculpa.
eu escolho aceitar: o passado é um país inigualável, banhado de vermelho, com árvores e pássaros para cantar.
< back to 'blog.'